segunda-feira, 14 de março de 2016

Criança também é povo. Abaixa o preço do kinder ovo!

AVISO IMPORTANTE: A postagem a seguir trata-se de uma história real.  Comentários maldosos e ofensas serão devidamente apagados. 
Se ao terminar de ler o relato, você não sinta empatia alguma, eu peço que não comente. Aqui no blog há inúmeras postagens, sobre os mais variados tipos. Você pode comentar em qualquer outra. 



" A primeira vez que comi um kinder ovo foi no 2º ano do ensino médio. E diga-se de passagem, que eu não comprei. Ganhei.
Durante toda minha infância, vi aqueles pequenos ovos no mercado, mas nunca pude comprá-los. É bem verdade que eles custavam muito menos do que hoje. Qual deveria ser o preço? 1,00? O problema é que esse 1,00 era muito dinheiro. Muito mesmo. Com esse valor a gente podia comprar um saco de pão. E se fosse pão velho, daí sim. Tinha pão pro mês inteiro.
Hoje 1,00 vale quase nada, é verdade. Mas quanto era o salário há anos atrás? Quais eram as oportunidades para uma mãe e padrasto sem estudo algum, criarem 7 filhos? Com certeza o preço do kinder ovo não era problema.
Problema era saber se íamos ter o que comer. As vezes tinha alguns bolinhos feitos pela minha mãe no fogão improvisado na rua. Isso tudo a noite. Durante o dia, minha mãe trabalhava - PASMEM - de babá. Um pouco irônico que ela criasse os filhos dos outros enquanto não tinha oportunidade de criar os próprios.
Meu padrasto trabalhava no caminhão do lixo. Mas tudo bem, não precisa olhar com essa cara de dó. Graças a isso, às vezes tinhámos coisas boas para comer. Vocês sabiam que se comerem o iogurte, um, dois, três dias vencido, você não morre? Pois é! Então sempre tinha algum dono de barzinho que tinha pena daquele garoto - mais novo do que eu hoje em dia - que criava aquela escadinha de filhos.
E durante o dia? Sempre havia a escola. Alegria era quando a merenda era carreteiro. Os colegas reclamavam, mas a gente fazia a festa. A tia da merenda enchia nossos pratos e quando não tinha ninguém olhando, nos deixava repetir. E às vezes, aquela era a única refeição do dia.
Você agora deve estar se perguntando "mas com quem vocês ficavam? Tinham babá?" ah sim. Quando se é entre 7 irmãos, o que não falta é babá.
A medida que íamos crescendo, ficávamos responsáveis pelos mais novos. Aos 10 anos, eu já levava meu irmão para escola. Atravessávamos os 6km de ida e 6km de volta a pé. Mas tudo bem. Não há melhor irmandade do que aquela que nasce nessas caminhadas.
Ah, mas nós ainda tivemos sorte. Por sermos do grupo de filhos mais novos, tivemos algumas regalias. Tivemos mais oportunidade de estudo e até fomos parar em uma escola de artes.
Os mais velhos, não tiveram a mesma felicidade. Aos 8 anos, já precisavam vender bolos e pastéis pela cidade. Eu sempre acho que comecei a trabalhar muito cedo (aos 14 anos), mas quando lembro dos meus irmãos... eu comecei foi tarde demais.
Com o passar do tempo, as coisas foram melhorando. Os mais velhos foram saindo de casa. E aí surgiu o bolsa família. Ou como você chama? Bolsa vagabundo? Isso mesmo! Bolsa pra vagabunda da minha mãe, que aturava as humilhações do patrão para que todos os filhos sobrevivessem. Bolsa vagabundo para meu padrasto que criava filhos e enteados. Bolsa vagabundo para os filhos, que estudavam e trabalhavam. Bando de vagabundo a minha família.
Mas tudo bem. Ainda assim cresci de forma digna. Nunca fui estuprada, nunca usei drogas, nunca precisei me prostituir.  E no fim eu cresci. Pude estudar, me achei em uma profissão bacana, arrumei um bom marido, ganhei bolsa na faculdade. Mas ainda fico brava sim, quando vejo um protesto pelo Kinder Ovo. Ah sei, não era pelo Kinder Ovo. Mas ele tava ali. Acho que os pais deviam explicar para as crianças que protesto é coisa séria. Que tem que ver se há pelo que lutar.  E aqui, eu até incluo o protesto do shortinho. Tem que protestar sim pelo fim do machismo em nossas escolas.
Nem estou julgando quem protestou ou não. Mas quais foram os motivos? Foi porque agora precisa pagar os direitos certinhos para a empregada? Ou foi porque agora, eu, mulher, vinda de uma família pobre, posso estudar na mesma escola que seu filho?
Tem que ensinar que tem gente passando muito trabalho. E não porque não pode comprar um tênis de marca. Mas sim, porque não pode comprar tênis algum.
Tem que ensinar que o Brasil ainda precisa de cotas. Que as mulheres precisam do feminismo. Que as pessoas não tem ainda oportunidades iguais. E se você ousa pensar o contrário, releia o relato. Se eu e meus irmãos, filhos da mesma mãe, vindos da mesma família, não tivemos as mesmas oportunidades, porque você acha que todos os outros têm? "


6 comentários:

  1. Oi, Gih!
    Mulher, sabe que sou fã dos teus textos né? Esse não poderia ser diferente. Concordo com tudo que você comentou.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe do sorteio do livro Marianas | Porcelana - Financiamento Coletivo

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    Respostas
    1. Lu, fico sempre tão feliz com esses elogios <3
      Fico muito contente em saber que você curte tanto o que escrevo =D
      Beijão

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  2. Oi, muito bom desse texto realmente as oportunidades são diferentes para muitos e hoje muitas pessoas não estudam e não tem nem alimentos direito.
    Ao ler seu poste eu vi como que a minha infância foi boa e por isso nem posso reclamar dela.
    Hoje em dia o salario não vale praticamente nada, pois tudo sobre mais que o salário.

    momentocrivelli.blogspot.com.br

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  3. Mulher, que texto maravilhoso! Me deu até vontade de mostrar pra algumas pessoas que eu conheço que parece que nunca entenderam isso. As pessoas falam em meritocracia, mas não pensam que tem muita gente que não tem dinheiro nem pra comprar um prato de comida.
    Beijos
    Infinita Feminice

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  4. Texto muito relevante! Li no face e com certeza curti lá tbem!! Perfeita a observação: protesto é coisa séria!!!��

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  5. Texto muito relevante! Li no face e com certeza curti lá tbem!! Perfeita a observação: protesto é coisa séria!!!��

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